O Quinteto Violado consolidou-se como um dos mais importantes e longevos grupos da música brasileira, estabelecendo-se ao longo de mais de cinco décadas como símbolo de modernidade cosmopolita no universo musical nordestino. Formado em 1970 na cidade do Recife, o grupo revolucionou a interpretação da música nordestina através de pesquisas sobre o folclore brasileiro e arranjos inovadores.
Origens e Formação Histórica
A história do Quinteto Violado começou em janeiro de 1970, quando pela primeira vez subiram juntos a um palco na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco. Inicialmente, o grupo ainda não possuía a denominação que o tornaria famoso.
Origem do Nome
O nome “Quinteto Violado” surgiu em outubro de 1971, quando se apresentaram no Teatro da Nova Jerusalém em Fazenda Nova, PE. Seus integrantes foram chamados de “os violados” por Robinson Pacheco, filho do idealizador do teatro, nascendo assim a identidade que os acompanharia por décadas.
Formação Original
A formação inicial incluía Toinho Alves (1943-2008) no canto e baixo acústico, Marcelo Melo (nascido na Paraíba) no canto, viola e violão, Fernando Filizola na viola, Luciano Pimentel (1941-2006) na percussão e Alexandre “Sando” dos Anjos na flauta.
Reconhecimento e Projeção Nacional
Descoberta por Grandes Artistas
O grupo foi apresentado por Gilberto Gil ao produtor Roberto Santana da Phonogram, e seu aparecimento foi exaltado por Caetano Veloso. Este reconhecimento pelos tropicalistas foi fundamental para sua projeção nacional.
Estreia Internacional
A estreia internacional aconteceu no Midem, realizado em Cannes, França, resultando no lançamento de seu primeiro disco e do LP “A Feira no Japão”. Na mesma viagem, apresentaram-se no Olympia em Paris ao lado de Jorge Ben Jor, Toquinho e Vinícius de Moraes.
Inovação Musical: “Free Nordestino”
Revolução Sonora
O som do grupo foi rotulado como “free nordestino”, em alusão às liberdades harmônicas do free jazz. Nos arranjos do quinteto há referências tanto da música erudita quanto dos folguedos populares nordestinos.
Filosofia Musical
O Quinteto Violado mostrou como se podia dançar e tocar o baião e outros ritmos nordestinos com influência da música mundial. É uma música nordestina na essência, mas cosmopolita na harmonia.
Discografia Fundamental
Década de Ouro (1970s)
Os anos 1970 produziram álbuns fundamentais: “Quinteto Violado” (1972), “Quinteto Violado” (1973), “Berra Boi” (1974), “A Feira” (1975), “Folguedo” (1976), “Missa do Vaqueiro” (1977), “Antologia do Baião” (1978) e “Até a Amazônia?!” (1979), todos editados pela Philips.
“A Feira” – Marco Artístico
Em 1974 lançaram o disco “A Feira”, onde cantaram “Disparada” de Geraldo Vandré, “Assum Preto” de Luiz Gonzaga, “Procissão” de Gilberto Gil e “Ave Maria” de Caetano Veloso. Montaram o show “A Feira” com participação inicial de Elba Ramalho.
“Missa do Vaqueiro”
Em 1976 lançaram “A Missa do Vaqueiro” da obra de Janduhi Filizola, trabalho que se tornou um dos marcos de sua discografia e da música sacra nordestina.
Atividades Educativas e Culturais
Trabalho Pedagógico
Em 1977 e 1978 realizaram 97 concertos-aula destinados a alunos da rede pública de ensino de Pernambuco. Além da música, realizaram trabalhos didáticos, ministrando oficinas musicais em escolas pernambucanas.
Reconhecimentos e Prêmios
Troféu Noel Rosa (1974)
Em 1974 receberam o Troféu Noel Rosa como Melhor Conjunto Instrumental do Brasil, pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo.
Prêmios da Música Brasileira
O grupo acumulou múltiplos Prêmios da Música Brasileira: em 2011 (22º Prêmio) na categoria Melhor Grupo Regional, em 2012 (23º Prêmio) como Melhor Grupo, e em 2014 como Melhor Disco de Música Regional por “Quinteto Canta Gonzagão”.
Comenda da Ordem do Mérito Cultural
Receberam da ministra Ana de Holanda a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, reconhecimento oficial do governo brasileiro.
Evolução e Renovação
Mudanças de Formação
Da formação original, apenas Marcelo Melo permanece. Sando deixou o grupo em 1975, Luciano saiu em 1983 (falecendo em 2006), Fernando debandou em 1984 e Toinho morreu em 2008.
Formação Atual
Atualmente a formação conta com Marcelo Melo, Dudu Alves, Roberto Medeiros, Sandro Lins e Deri Santana. Cada integrante traz sua própria visão, enriquecendo a proposta musical do grupo.
Projetos Temáticos Recentes
Homenagens a Mestres
O grupo desenvolveu álbuns dedicados a grandes nomes: “Quinteto Canta Vandré” (1997), “Quinteto Canta Gonzagão” (2012) e “Quinteto Canta Dominguinhos” (2015) com participações de Lenine, Lucy Alves, Liv Morais, Cezzinha, Santanna e Maciel Melo.
“Eu Disse Freeevo!” (2014)
Lançaram disco especialmente voltado para o frevo pernambucano, com sucessos como “Frevo Mulher” e “Me Segura Se Não Eu Caio”, além de inéditas como “Pernambuco Doce” de Marcelo Melo.
Documentação Histórica
Biografia Oficial
O jornalista José Teles lançou “Lá Vêm os Violados” (2012), livro que conta a trajetória desde a estreia em Nova Jerusalém até os 40 anos de carreira. A obra retrata a importância do grupo na cultura e música brasileira.
Versão Ampliada
A biografia foi ampliada pela Companhia Editora de Pernambuco, chegando até a interrupção pela pandemia, exatamente quando começavam a comemorar 50 anos de estrada.
Características Artísticas
Tradição e Modernidade
A combinação entre tradição e modernidade é um dos aspectos mais admirados. Em um cenário musical em evolução, o grupo permanece fiel às raízes enquanto explora novas sonoridades.
Versatilidade de Repertório
Os arranjos contemporâneos aliados ao repertório popular ilustram como conseguem conversar com público diverso, ressoando com diferentes idades e culturas.
Resistência e Continuidade
Marginalização e Persistência
Mesmo jogado para a margem do mercado fonográfico a partir dos anos 1980, passando a lançar discos independentemente, o Quinteto Violado segue em cena sem dar sinais de cansaço.
Fenômeno Cultural
O Quinteto Violado não é apenas uma banda; é um fenômeno cultural que representa a resistência e riqueza musical do Nordeste, contribuindo para valorização de uma cultura rica em tradições.
Legado e Projeção Futura
Influência Cultural
Através de sua arte, o grupo contribui para valorização cultural, ampliando horizontes para novas gerações de artistas. A habilidade de adaptar-se às mudanças mantendo a essência nordestina é segredo do sucesso contínuo.
Futuro Promissor
À medida que avançam em sua jornada, o futuro parece promissor. Com a retomada de shows presenciais, estão prontos para continuar levando a música nordestina aos quatro cantos do mundo.
O Quinteto Violado consolidou-se como insólita instituição da música brasileira, representando mais de cinco décadas de resistência cultural e inovação artística. Sua trajetória exemplifica como é possível preservar e renovar simultaneamente as tradições musicais nordestinas, estabelecendo pontes entre o regional e o universal, entre o tradicional e o contemporâneo.
Através de sua música cosmopolita mas essencialmente nordestina, o grupo garante que as tradições folclóricas permaneçam vivas e relevantes, inspirando novas gerações de músicos e mantendo acesa a chama da cultura popular brasileira.