Antônio Alcymar Monteiro dos Santos, mundialmente conhecido como Alcymar Monteiro e consagrado como “O Rei do Forró”, emergiu como uma das figuras mais importantes e influentes da música nordestina brasileira. Nascido em 13 de fevereiro de 1950 no distrito de Ingazeira, em Aurora, no Ceará, ele construiu uma carreira extraordinária de mais de cinco décadas, estabelecendo-se como um dos maiores intérpretes do forró brasileiro.
Origens Familiares e Primeiras Influências
Alcymar cresceu em um ambiente profundamente musical. Neto de violeiro, sobrinho de sanfoneiro e com família originária de Santa Cruz do Capibaribe – PE, ele absorveu desde cedo as tradições musicais nordestinas. Filho de Artur Monteiro dos Santos e Maria Fernandes dos Santos, teve 9 irmãos e começou a cantar na infância muito pequeno.
Formação Musical e Educacional
Alcymar estudou música no Conservatório Alberto Nepomuceno, em Fortaleza, e cursou o 3° ano de letras na Universidade do Vale de Acaraú – CE. Também fez teatro, integrando peças em escolas e eventos culturais nordestinos, incluindo festividades tradicionais como “reizados”.
Início da Carreira e Primeiros Desafios
Primeiros Passos no Ceará
Seu primeiro contato com o microfone foi no “Show da Semana” promovido pela Rádio Iracema. Com o tempo foi ganhando concursos e testes, criando visibilidade e fama por cantar muito afinado, passando então a se integrar a bandas de baile.
Experiência em Pernambuco
No fim da década de 60, tentou a sorte no estado de Pernambuco, especificamente em Recife, onde conseguiu uma oportunidade pessoal e artística se hospedando e morando na casa do cantor Reginaldo Rossi, o Rei do Brega. Foi lá que conseguiu gravar seu primeiro disco no gênero Forró.
Migração para São Paulo
Em 1975 decidiu fazer as malas e ir de vez para o sul do país e tentar ganhar a vida. Persistente e sem medo chegou a dormir nas ruas do centro da capital Paulistana, e desmaiar de fraqueza e de fome, segundo ele mesmo relatou em entrevistas.
Consagração Nacional
Álbuns que Marcaram Época
A fama nacional veio com os álbuns “Forroteria” em 1986 – em que teve a honra de gravar com Luiz Gonzaga (Rei do Baião) e Marinês (Rainha do Xaxado) – “Portas e Janelas” em 1987 e “Rosa dos Ventos” em 1989. Nesse período, fazia parte do elenco de estrelas das grandes gravadoras: Som Livre, RGE, Continental e Warner.
O Título de “Rei do Forró”
Em 1989, o apresentador paraibano Tony Show, em seu programa de TV, teve como convidado Alcymar Monteiro. No momento de chamar o artista no palco, Tony anunciou: “Vem aí o Rei do Forró… Alcymar Monteiro!”. Após o ocorrido nasceu a taxação e o rótulo de reconhecimento ao trabalho prestado por Alcymar ao gênero.
O disco de 1991 foi lançado com o título “O Rei do Forró”, de onde saíram músicas que se tornaram sucessos consagrados, a exemplo de “Cavaleiro Alado”.
Inovação Musical: Criação da Vaquejada
Gênero Musical Revolucionário
No fim da década de 80, órfãos de Luiz Gonzaga, o Forró teve uma baixa na notoriedade nacional. Alcymar fez uma junção do “útil ao agradável”, unindo o canto do aboiador de gado no campo com a poesia brasileira sendo cantada nos ritmos do Forró, nascendo assim as cantorias de Vaquejada em 1987.
Impacto Cultural
Alcymar tornou-se o que podemos chamar de porta-voz das vaquejadas, que disparou como uma das mais populares manifestações em todo o nordeste e em outras regiões do Brasil. Criou e interpretou a trilha sonora das vaquejadas brasileiras, hoje o segundo maior evento desportivo cultural do Brasil.
Carreira Internacional
Turnês Mundiais
Com algumas turnês internacionais, Alcymar já teve seus trabalhos lançados no exterior, ao todo em 4 continentes: América, Europa, Ásia e África. Em 2001 se apresentou no Festival de Montreaux na Suíça, no Festival Latino Americano em Milão na Itália, na Áustria em Imst, na Suíça em Laussane e Zurich.
Sucesso Internacional
Seu maior sucesso internacional foi a regravação da música “Carnavalito” presente no disco gravado em espanhol “Forró Brasileño” (Forró Brasileiro), no ano de 2007.
Discografia Prolífica
Números Impressionantes
Tem 40 trabalhos lançados, 4 no exterior. Europa, Japão e EUA, além de 4 CDs de carnaval. Tem mais de 1.500 canções gravadas e é considerado um dos maiores intérpretes do forró brasileiro.
Principais Álbuns
Entre seus trabalhos mais significativos destacam-se:
- “Nossas Vidas, Nossas Flores” (1980) – MPB
- “Forroteria” (1986) – com Luiz Gonzaga
- “O Rei do Forró” (1991) – marco da carreira
- “Vaquejadas Brasileiras” (série) – criação do gênero
- “Forró Brasileño” (2007) – indicado ao Grammy Latino
- “Nordestinia” (2023) – trabalho mais recente
Reconhecimentos e Prêmios
Principais Conquistas
- Duas vezes indicado ao Prêmio Sharp de Música com o CD “Vaquejadas Brasileiras Vol.1”
- Indicação ao Prêmio TIM (2005) em três categorias pelo álbum “Meu Forró é meu Canto”
- Indicação ao Grammy Latino (2007) com o álbum “Forró Brasileño”
- Ordem do Mérito Cultural (2016) – categoria Comendador
- Troféu Melhores do São João (2017, 2019)
Reconhecimento do Forró como Patrimônio
Em 2021 foi convidado a representar, junto a uma gama de artistas e forrozeiros, para receber o título do gênero “Forró Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil” reconhecido pelo IPHAN.
Filosofia Musical e Características Artísticas
Identidade Visual
Sempre vestido de branco, recebeu conselho de Luiz Gonzaga: “Tua voz é o teu brasão. Mas você precisa criar um tipo representativo”.
Essência Artística
“Quando canto converso comigo, minha voz é meu brasão”, declara o artista. “Meu cantar é minha identificação, quando canto falo da boca para dentro, minha interpretação vem do meu espírito”.
Colaborações e Parcerias
Artistas Consagrados
Suas músicas foram gravadas por Luiz Gonzaga, Fagner, Alceu Valença, Dominguinhos, Sivuca, Jair Rodrigues, Zé Ramalho e Elba Ramalho. A voz de Alcymar entoou composições de nomes como Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Milton Nascimento e muitos outros grandes compositores.
Projeto Especial
Com a Orquestra Criança Cidadã, dos Meninos do Coque, gravou em 2010 o “Concerto para Gonzaga”, uma compilação das músicas mais expressivas do rei do baião numa roupagem erudita, prestando homenagem pelo centenário de Luiz Gonzaga.
Conflitos e Resistência Cultural
Embate com o Forró Eletrônico
Após ter fornecido músicas para o primeiro disco da banda Mastruz com Leite, Alcymar afirma ter percebido que caiu numa cilada. A SomZoom passou a dominar, monopolizar e até cartelizar o mercado da música nordestina, inclusive os circuitos de vaquejada.
Defesa do Forró Tradicional
Alcymar posicionou-se como defensor do forró tradicional contra a comercialização excessiva do gênero, mantendo-se fiel às raízes nordestinas em sua música.
Legado e Continuidade
Patrimônio Cultural
Alcymar Monteiro consolidou-se como patrimônio vivo da música nordestina, sendo reconhecido como cidadão em cidades dos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Influência Duradoura
Com mais de 50 anos de carreira, ele mantém-se ativo e relevante, continuando a defender e promover a música nordestina autêntica. Sua criação do gênero Vaquejada revolucionou o cenário musical brasileiro, estabelecendo uma nova forma de expressão cultural.
Embaixador da Cultura Nordestina
Através de suas turnês internacionais e de sua vasta discografia, Alcymar estabeleceu-se como embaixador natural da cultura nordestina, levando o forró e suas variações para públicos do mundo inteiro.
Alcymar Monteiro representa mais que um artista – é um guardião das tradições musicais nordestinas que soube inovar respeitando as raízes. Sua trajetória exemplifica como o talento, a persistência e o amor genuíno pela cultura regional podem criar um legado duradouro que transcende gerações e fronteiras geográficas, mantendo viva a chama da música popular brasileira.