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O Cascabulho emergiu como uma das mais importantes expressões do movimento manguebeat pernambucano, consolidando-se ao longo de três décadas como um grupo inovador que funde ritmos tradicionais nordestinos como coco, baião e maracatu com elementos contemporâneos. Formado em 1995 em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife, o grupo criou uma identidade musical única que transcende fronteiras geográficas e culturais.

Origens e Conceito Inicial

O Cascabulho surgiu com um trabalho que girava em torno do mito de Jackson do Pandeiro, sem, no entanto, prender-se a ele e deixar de aflorar a personalidade singular “cascabulhesca”. Esta abordagem permitiu ao grupo criar sua própria linguagem musical, estabelecendo uma fusão única entre elementos rurais trazidos de seus descendentes e características intrínsecas adquiridas na vida urbana.

Filosofia Musical

Desse encontro de influências e culturas, pode-se referenciar uma “Música Cascabulho” – uma música marcante, forte, como a definição de seu próprio nome. O grupo desenvolveu um estilo que vai de Jackson do Pandeiro ao Jimi Hendrix, de Dominguinhos ao mundo POP, onde cada integrante contribui com suas referências, naturalmente incorporadas na música coletiva.

Formação Original e Primeiros Sucessos

Integrantes Fundadores

Formado inicialmente por Silvério Pessoa (percussão e voz), Jorge Martins (percussão e vocal), Marcos Lopes (percussão, guitarra e vocal), Wilson Farias (percussão, bateria e vocal), Kléber Magrão (percussão, teclado e vocal) e Lito Viana (baixo, cavaquinho e vocal), o Cascabulho estabeleceu desde o início uma formação múltipla que permitia explorar diferentes sonoridades.

Revelação Nacional (1997)

O Cascabulho foi a revelação do Abril Pro Rock em 1997, participou do Free Jazz Festival no mesmo ano e, ainda sem ter gravado um CD, já viajavam para a Europa e Canadá. Este reconhecimento precoce demonstrou o potencial internacional do grupo desde seus primeiros anos.

“Fome Dá Dor de Cabeça” – O Marco Inicial

Primeiro Álbum (1998)

Em 1998, lançaram ainda com a primeira formação o CD “Fome Dá Dor de Cabeça”. Este trabalho de estreia foi fundamental para estabelecer a identidade sonora do grupo e conquistar reconhecimento nacional e internacional.

Reconhecimento Crítico

Com esse disco, ganharam o Prêmio Sharp de Melhor Álbum Regional e Melhor Canção Regional, com a música “Quando Sonhei que era Santo”. O Prêmio Sharp era então considerado o mais importante da música brasileira, legitimando definitivamente o trabalho do Cascabulho.

Expansão Internacional

O CD “Fome Dá Dor de Cabeça” foi lançado em 2000 na Europa pelo selo Piranha Records e no Japão pela Nikita Records, estabelecendo o grupo no mercado internacional de world music.

Transição e Renovação (2000)

Saída de Silvério Pessoa

No ano 2000, Silvério Pessoa deixou a banda buscando uma carreira solo, pondo em dúvida a continuidade do grupo. Esta mudança representou um momento crucial na história da banda, que precisou se reinventar mantendo sua essência.

Nova Formação

O grupo seguiu com uma nova formação, com Kléber Magrão assumindo os vocais principais, junto com os remanescentes da formação original e novos integrantes que trouxeram novas influências musicais.

“É Caco de Vidro Puro” – Maturidade Artística

Segundo Álbum (2004)

Com Kléber Magrão na voz, foi gravado o segundo CD, “É Caco de Vidro Puro”. O álbum manteve a fusão de ritmos tradicionais e elementos pop, trazendo em sua mistura benditos, cavalo-marinho, boi, maracatu, baião, cocos, música de jurema (espécie de candomblé com elementos indígenas).

Colaborações Ilustres

O disco contou com participações especiais de Tom Zé, Fred 04, Marcos Suzano e Nana Vasconcelos, demonstrando o respeito que o grupo conquistou entre grandes nomes da música brasileira.

Indicação ao Grammy Latino

O álbum “É Caco de Vidro Puro” rendeu ao Cascabulho uma indicação ao Grammy Latino em 2004, consolidando seu reconhecimento internacional.

Consolidação Internacional

Turnês Mundiais

O grupo realizou shows nos Estados Unidos, Alemanha (Womex – 1999) e diversos outros países, consolidando uma trajetória internacional que se mantém até os dias atuais.

Presença em Festivais Importantes

O manguebeat ainda fervilhava quando, em 1997, surgiu o Cascabulho, com uma proposta de forró. Logo o grupo fazia apresentações em festivais no Canadá, estabelecendo-se como embaixador da música nordestina no exterior.

Evolução Discográfica

“Brincando de Coisa Séria” (2008)

Em 2008, o grupo lançou “Brincando de Coisa Séria”, com participações especiais de Zeca Baleiro, Júnior Tostoi e Carlos Malta, demonstrando a continuidade de seu diálogo com importantes nomes da MPB.

“O Dia em que o Samba Perdeu pra Feijoada” (2014)

O quarto álbum, lançado em 2014, manteve a característica experimental do grupo, explorando novas fusões musicais sem perder a identidade nordestina.

“Fogo na Pele” – Retorno às Raízes (2021)

Forró Vintage

Em 2021, o Cascabulho apresentou o quinto álbum, “Fogo na Pele”, no qual mais se aproxima de um forró que cada vez mais existe apenas nas recordações daqueles que o viveram até os anos 70. Com uma produção simples e elegante de Breno César Cunha, o trabalho representa um raro exemplo de forró vintage.

Participações Especiais

As participações são ilustres e têm tudo a ver com o Cascabulho: Josildo Sá (em “Noite de Forrobodó”), Mestre Galo Preto (em “Tempo de Coco”) e Cláudio Rabeca (em “Pela Trilha Sagrada”).

Sonoridade Autêntica

Em todas as dez faixas, é curioso como o Cascabulho consegue a sonoridade dos forrozeiros dos anos 60. Todas as músicas são autorais e “balançadas mais que suficientes para os calçados dos dançarinos levantarem poeira”.

Formação Atual e Características

Integrantes Contemporâneos

A formação atual é composta por Jorge Martins (percussão e vocal), Kléber Magrão (voz), Léo Oroska (percussão e vocal), Rapha Groove (baixo) e Matheus Vilela (violão e guitarra), mantendo a versatilidade instrumental que caracteriza o grupo.

Diversidade de Formação

Todos os integrantes têm formação musical, cada um com sua maneira de se apropriar do conhecimento, sendo acadêmico ou de forma autodidata. Destaque para Matheus Vilela, que além de músico é arqueólogo.

Filosofia Artística e Processo Criativo

Estilo Musical Único

O estilo musical da banda é definido como uma “música CASCABULHO”, onde todas as referências confluem para uma harmonia natural e um conteúdo verdadeiro, prezando por uma qualidade musical natural e antenada com o mundo.

Processo Compositivo

O processo de composição é extremamente livre. Às vezes partem de uma letra pronta, às vezes de uma melodia e harmonia ou de uma composição pronta de algum integrante. O arranjo é sempre trabalhado de forma coletiva.

Parcerias Criativas

Todos os integrantes da banda são possíveis parceiros compositivos. No álbum atual, trabalharam muito as parcerias com Breno César Cunha, que foi produtor e acordeonista.

Carreira Independente e Estratégias

Autonomia Artística

Os prós da carreira independente são assumir o controle total do trabalho, dentro e fora dos palcos. Os contras envolvem todas as etapas do trabalho serem realizadas pela banda, tendo que estar presente no artístico e em todas as questões executivas.

Abordagem Empresarial

Procuram sempre atentar para a banda como uma empresa, apropriando-se de estratégias de marketing e tendo sempre orçamento previamente definido para as ações: contratação de equipe técnica, figurino, divulgação.

Estratégias Digitais

Seguem estratégias que estão funcionando com o aprendizado e interação com as novas gerações, sabendo trabalhar com as possibilidades das redes sociais, sem perder a profundidade do conteúdo e a verdade artística.

Discografia Completa

Álbuns de Estúdio

  • “Fome Dá Dor de Cabeça” (1998)
  • “É Caco de Vidro Puro” (2004)
  • “Brincando de Coisa Séria” (2008)
  • “O Dia em que o Samba Perdeu pra Feijoada” (2014)
  • “Fogo na Pele” (2021)

Participações Especiais

  • “Baião de Viramundo – Tributo a Luiz Gonzaga” (2000)
  • “Reginaldo Rossi – Um Tributo” (2000), cantando “Deixa de Banca (Borogodá)”

Legado e Continuidade

Longevidade Artística

Com 30 anos de carreira, o Cascabulho chegou a este marco sem estar atrelado a modismos, seguindo o princípio de que “o LIKE é líquido como o picolé que derrete no palito”.

Compromisso com a Tradição

Preferem seguir o caminho dos grandes MESTRES, considerando o processo musical dinâmico, mas mantendo-se fiéis ao caminho coerente aprendido com os grandes nomes da música brasileira.

Influência Cultural

O Cascabulho representa a síntese perfeita entre tradição e inovação no cenário musical nordestino. Sua capacidade de manter vivas as tradições regionais enquanto dialoga com linguagens contemporâneas estabeleceu o grupo como referência fundamental no movimento manguebeat e na world music brasileira.

Através de sua trajetória internacional e de sua produção consistente, o grupo garante que a riqueza cultural nordestina continue sendo valorizada e divulgada mundialmente, inspirando novas gerações de músicos e mantendo viva a chama da música popular brasileira.

Com sua verve criativa e vigorosa, o Cascabulho segue esquentando nossa música, provando que é possível manter a autenticidade cultural enquanto se explora novas possibilidades expressivas dentro do universo musical brasileiro.