Quem circular pela disputada Alameda dos Mestres durante a 26ª Fenearte vai se deparar com uma novidade que resume perfeitamente a força da nossa economia criativa: uma série inédita de painéis cerâmicos que unem a herança centenária de Tracunhaém a um conceito estético contemporâneo e encantador feitos por Mestre Zuza de Tracunhaém.
Aos 68 anos de idade, Mestre Zuza apresenta ao público um trabalho sensível e minucioso, composto por pequenos quadriláteros de argila com aproximadamente o tamanho de uma palma da mão.
Cada azulejo traz elementos modelados que remetem à paisagem, ao simbolismo, à fauna, à flora e ao folguedo popular pernambucano, criando um mosaico que é puro sotaque e pertencimento.
Da Encomenda Casual ao Sucesso Nacional
A ideia de criar os painéis cerâmicos nasceu de forma despretensiosa, a partir do desafio lançado por uma cliente no início deste ano. O sucesso foi tão avassalador que o ateliê do mestre, em Tracunhaém, não parou mais de receber encomendas de arquitetos, decoradores e colecionadores de várias partes do Brasil e até do exterior.
“Essa ideia surgiu a partir de uma encomenda feita por uma cliente, em janeiro deste ano. Eu topei o desafio e, de lá para cá, não parei mais. Todos os dias tenho recebido encomendas de várias partes do Brasil e até do exterior. Agora chegou a vez de levar esse trabalho para a Fenearte. Os valores variam de acordo com cada peça e elas podem compor diferentes ambientes, como salas, cozinhas, banheiros e também espaços comerciais, como restaurantes, escritórios e salas de reunião”, conta Mestre Zuza, com os olhos brilhando de entusiasmo.
Além dos inovadores painéis, o mestre traz para Olinda as suas consagradas esculturas sacras e figuras expressivas em barro cru e queimado, marcas registradas que consolidaram o prestígio de sua assinatura artística na Alameda dos Mestres, onde bate ponto há mais de duas décadas.
A Resistência de uma Dinastia de Oleiros de Tracunhaém
Falar da obra de Mestre Zuza é fazer uma viagem no tempo por mais de um século de tradição familiar. Tracunhaém, na Zona da Mata Norte, é reconhecida mundialmente como a capital da cerâmica utilitária e figurativa. Foi nessa atmosfera de fumaça de forno e argila úmida que a família Batista ergueu o seu legado.
De uma irmandade numerosa de dez irmãos que cresceram moldando o barro com os pais, coube a Mestre Zuza a nobre e solitária missão de manter essa chama acesa. Com o falecimento de seus pais e de todos os seus irmãos, ele se tornou o único guardião vivo dessa herança centenária — responsabilidade que ele já começa a transferir com paciência e dengo para os seus dois netos.
A Rotina de um Mestre: O Ateliê no Quintal de Casa
Para dar conta da produção para a maior feira de artesanato da América Latina, a rotina no quintal da casa do mestre ganhou contornos de pura maratona. O dia começa cedo, às 4h da manhã, e a queima e os acabamentos estendem-se até a meia-noite.
É nesse ambiente doméstico e sagrado, cercado por santos em secagem, ferramentas rudimentares, plantas e o carinho da família, que Mestre Zuza esculpe o seu maior desejo: “Meu maior sonho é me tornar Patrimônio Vivo de Pernambuco. Seria o maior presente da minha vida, porque minha arte continuaria viva na memória dos pernambucanos e do Brasil. Hoje, meus netos já começam a aprender esse ofício, e isso me dá a certeza de que a história da nossa família vai continuar”, afirma o mestre, comovido.