Maria Madalena Correia do Nascimento, conhecida mundialmente como Lia de Itamaracá, é uma das mais importantes representantes da cultura popular brasileira e a maior voz da ciranda do país. Nascida em 12 de janeiro de 1944 na Ilha de Itamaracá, região metropolitana do Recife, Pernambuco, ela transformou uma manifestação cultural regional em patrimônio nacional e internacional.
Origens e Primeiras Influências
Lia nasceu em uma família humilde – filha de uma empregada doméstica e de um agricultor – sendo a única entre 22 irmãos a se dedicar à música. Segundo ela própria, trata-se de um dom de Deus e uma graça de Iemanjá. Desde muito nova sabia que seria uma cantora, começando ainda criança a participar das rodas de ciranda da ilha.
Seu contato inicial com a música se deu através dos folguedos católicos celebrados na Ilha de Itamaracá, como a Festa de Nossa Senhora do Pilar, os reisados e os pastoris, nos quais aprendeu loas e canções. Apaixonada pelas rodas de coco e ciranda, aos 12 anos se tornou cantora amadora nas festas de São João.
Descoberta e Reconhecimento Inicial
Lia ficou conhecida como “Lia de Itamaracá” nos anos 1960, depois que a pesquisadora e cantora Teca Calazans incorporou versos cantados pela cirandeira e acrescentou: “Esta ciranda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá”. Teca, nascida em Vitória no Espírito Santo, foi uma das primeiras pessoas interessadas na cultura popular nordestina a descobrir o talento de Lia.
A cirandeira frequentava a ciranda de Dona Duda (1923-2022) na Praia do Janga, importante ponto de encontro de mestres cirandeiros, experiência que contribuiu significativamente para seu aprendizado e formação de repertório.
Carreira Profissional e Primeiros Desafios
Nos anos 1970, Lia assumiu o papel de agitadora cultural na ilha, conduzindo rodas no Bar O Sargaço, onde também trabalhava como cozinheira. Conciliava sua paixão pela música com a necessidade de sustentar a casa, cozinhando durante o dia e promovendo cirandas à noite para veranistas e visitantes que passaram a frequentar a ilha especificamente para dançar sua ciranda.
Em 1974, venceu o V Festival de Cirandas, realizado no Pátio de São Pedro, na capital pernambucana. Posteriormente, aceitou um trabalho como merendeira numa escola local, mantendo-se nessa função até se aposentar.
Discografia e Projeção Nacional
Primeiro Álbum (1977)
Sua voz chegou ao disco em 1977 com o LP “A Rainha da Ciranda”, trazendo composições de mestres como Baracho e Dona Duda, além de canções de Ozires Diniz, Fernando Borges, Capiba e da própria Lia, como o sucesso “Moça Namoradeira”. Embora o disco tenha possibilitado a divulgação regional, Lia recebeu apenas 20 exemplares para distribuir e nenhum centavo pelos direitos autorais.
Redescoberta Nacional (1998)
Mais de duas décadas depois, foi redescoberta quando o produtor musical Beto Hees a levou para participar do festival Abril Pro Rock em 1998, realizado no Recife e Olinda, onde fez grande sucesso e tornou-se conhecida em todo o Brasil.
Consolidação Internacional
Em 2000, lançou “Eu Sou Lia” pela Ciranda Records, cujo repertório incluía coco de raiz e loas de maracatu, além de cirandas acompanhadas por percussões e saxofone. O CD foi distribuído na França por um selo de world music, e sua voz rasgante chamou a atenção da imprensa internacional.
A partir deste momento, passou a fazer turnês internacionais, realizando sete shows em Paris e outros em Berlim. O jornal francês Le Parisien comparou sua voz à de Cesária Évora, enquanto The New York Times a chamou de “diva da música negra”.
Evolução Artística
O CD “Ciranda de Ritmos” (2008) consolidou a imagem da artista que tem a ciranda por base mas transita por gêneros como coco e maracatu. Mais de dez anos depois, lançou “Ciranda sem Fim” (2019), seu quarto e mais recente registro fonográfico, produzido por DJ Dolores, onde cantou novas sonoridades sem se desvirtuar de suas referências fundamentais.
Reconhecimentos e Títulos
Lia de Itamaracá acumulou importantes reconhecimentos ao longo de sua carreira:
- Patrimônio Vivo de Pernambuco (2005)
- Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
- Prêmio Tradições UBC 2023
- Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura
Influência e Legado
No Brasil, críticos musicais a compararam à Clementina de Jesus. Participou com uma faixa no disco “Rádio Samba” do grupo Nação Zumbi e teve seu nome citado em versos dos compositores pernambucanos Lenine e Otto.
Homenagens aos 80 Anos
Em 2024, por conta de seus 80 anos de vida, a artista foi celebrada no Carnaval em diferentes estados. No Rio de Janeiro, a Império da Tijuca desfilou com o enredo “Sou Lia de Itamaracá cirandando a vida na beira do mar”. Em São Paulo, a homenagem veio da escola Nenê de Vila Matilde.
Características Artísticas
Com 1,80 metros de altura e porte de rainha, Lia de Itamaracá se tornou a porta-voz da ciranda além das fronteiras de Pernambuco. Sua voz potente e inconfundível entoa cirandas clássicas que embalam as danças brasileiras desde os anos 1970.
Nessa época, utilizava um timbre mais metálico, tipo de emissão que favorecia a projeção da voz em lugares abertos. A imprensa internacional passou a batizar suas canções de “trance music”, numa tentativa de explicar o “transe” que o som causava no público.
Resistência e Ancestralidade
Lia de Itamaracá representa muito mais que uma artista: é uma entidade que carrega forte ancestralidade e deu cirandas e uma história de resistência ao povo brasileiro. Humilde, destemida e determinada, ela transformou a ciranda de uma manifestação coletiva e espontânea em gênero fonográfico, sem perder sua essência popular.
Aos 80 anos, continua ativa e determinada: “Ainda quero seguir com minha ciranda”. Sua trajetória reflete a transformação da cultura popular brasileira no século XX e XXI, sendo hoje uma das maiores representantes da música tradicional do país.
Com seu canto potente e inconfundível, Lia de Itamaracá consolidou-se como a rainha das cirandas praieiras de Pernambuco, levando a tradição ancestral das rodas de ciranda para plateias do mundo inteiro e garantindo a perpetuação dessa importante manifestação cultural brasileira.